Um quentinho para o coração 


Namore alguém de que você não goste de se despedir. Alguém que traga uma sensação boa quando você pensa nele em algum horário do dia. Namore alguém que te faça sentir mais feliz, mais disposto, mais vivo. Que traga um quentinho ao seu coração. 

Namore alguém que goste de conversar, que diga mais sim do que não, que vá com você e ache a sua companhia mais relevante do que o programa em si. Namore alguém que não economize sorrisos, que goste de andar de mãos dadas, alguém que você goste da pele, do toque, do tato. Alguém em que você se encaixe direitinho em um abraço.

Namore alguém que te ame, mas não espere que outra pessoa possa preencher o amor próprio que lhe falta. Ame-se o suficiente e o necessário para não ser carente demais, nem ciumento demais, nem arrogante demais. Se você já se sente muito completo sozinho, talvez tenha que tirar um pouquinho de si para abrir espaço para seu par se deixar um pouco em você.

Talvez você tenha que ter uma elasticidade em seus projetos e sonhos para comportar os projetos e sonhos de um outro alguém. Recalcular a rota quantas vezes for preciso até que os dois caminhem na mesma direção. 

Lembre-se de que você é uma parte boa da vida do seu namorado ou namorada. Ajude-o a ser melhor. Incentive seu par a cultivar suas amizades, pois você não as substituirá. Agregue-as como seus novos amigos. Incentive-o a cultivar seus hobbies, pois você também não os substituirá. 

Se você já encontrou este alguém, namore para casar. Não caia naquele papo de que o bom mesmo é ter vários relacionamentos, experiências diferentes, não se prender a ninguém. Bobagem. Se você já encontrou a pessoa que você quer ter sempre ao seu lado, não a perca. Mesmo que você seja muito jovem. Mesmo que seja seu primeiro namorado ou namorada. Quando você for mais velho, vai perceber como é valioso dividir a vida por tantos anos com a pessoa que se ama. 

Se você é casado, continue namorando. Nunca deixe seu namoro deixar de ser namoro. Não venha com essa conversa de que essa data é puramente comercial, não pense que é só para casais jovenzinhos, não deixe o romantismo morrer. Lembra daquela sensaçãozinha que você já teve no passado de querer tanto ter alguém para passar o Dia dos Namorados? Se hoje você tem, aproveite. 

Quando as últimas velas se apagam



Algumas semanas antes

Minha vovozinha que tem 100 anos foi internada semana passada. Seu organismo não está mais conseguindo engolir, fazendo com que ela tenha que se alimentar por uma sonda. Escrevendo isso aos meus familiares, li o que havia escrito e me dei conta do quanto é triste. E chorei. 

Chorei porque por mais saúde que a gente tenha, o corpo tem uma data de validade, e mesmo que não haja nenhum problema, uma hora ele para de funcionar. 

Chorei porque ela vai morrer, porque meus outros familiares vão morrer também um dia e porque a perspectiva da morte dói quase tanto quanto a própria morte. 

Chorei porque a vida consegue ser tão ingrata, que lutamos tanto para emagrecer, até que vem um câncer e nos rouba dez quilos em um mês, ou vem a idade e nos leva a capacidade de engolir. 

Chorei porque a mortalidade não nos cabe, é uma roupa apertada diante do nosso anseio pela eternidade. Porque nenhuma hora parece ser a certa para a despedida.

Porque tentamos ser tanta coisa a vida toda, queremos tanto, corremos tanto, até que chega a hora que não conseguimos mais andar, nem lembrar, nem conversar, nem ser mais nada daquilo que nos caracterizava como nós mesmos. Tudo é vaidade. 

Como no Curioso Caso de Benjamin Button, a idade avançada nos faz ser como bebês recém-nascidos, totalmente dependentes, gastando a maior parte da nossa vida de olhos fechados, dormindo, perdidos em sonhos que ofuscam a nitidez do nosso curto espaço de realidade. E então vamos encolhendo, diminuindo, regredindo e perdendo a forma, até desaparecer. 

O que me consola é saber que logo do outro lado está o Pai, de braços estendidos a nos receber, alegre por termos enfim chegado. E que minha avó vai poder sorrir novamente aquele sorriso alegre e cheio de vida, e vai estar repleta de força e energia para adorar ao Jesus que ela tanto anseia encontrar. 

28 de abril de 2017

Chorei, porque é impossível não chorar diante da morte de quem se ama. 

É triste, mas ao mesmo tempo feliz, pensar no encontro de uma pessoa com Deus. Lembro-me de tantas e tantas vezes que, sozinha com a vovó, conversávamos sobre como seria o céu. Como deve ser conseguir andar, e falar, e sorrir, e se maravilhar no paraíso, após anos de locomoção limitada e vida social restrita?

Os meses e anos se passavam e Deus prolongava a estadia dela aqui na Terra, e era tão bom poder visitá-la e sentir o calor da sua pele, passar os dedos em seus cabelos brancos, penteá-los, apoiar minha cabeça sobre seu colo e receber seu carinho. 

Vovó me perguntava se eu me nunca esqueceria dela. Claro que nunca vou te esquecer, vovó. Carregarei para sempre seu nome em meu nome e sua lembrança em minhas memórias e em meu coração. 

Sua história se encerra de uma forma bonita e serena. É feliz pensar em tudo o que vivemos juntas, todos os momentos que pude aproveitar ao seu lado. Descanse em paz, vovó. Nos encontraremos no céu um dia. 

Quando não é a hora

Às vezes a gente acha que é a hora que Deus quer. Tudo parece se encaixar tão perfeitamente, tudo dá tão certo em nossos planos, que só pode ser Deus dizendo que sim. Então a gente se ilude, faz planos, se joga de cabeça no que achávamos que seria um sim. Perfeito demais para ser verdade…

E então ficamos cegos. Cegos a alguns detalhes que não enxergamos, mas que estavam ali, bastava termos um pouco mais de atenção. Coisas que no fundinho até sentíamos que poderia ter algo de errado. E então vem a notícia. Não foi dessa vez. Não vai dar certo. Esquece tudo o que você achou que seria. Esqueça os planos que você fez. Esqueça as ilusões que você construiu. 

A alegria enorme que há poucas semanas você sentiu, agora vem no dobro de tamanho em formato de tristeza. Não era para ser. Não era a hora. Você repete essas palavras para si, como quem tenta acreditar. Mas é difícil acreditar. Tão difícil quanto passar por uma grande perda, uma grande dor, uma grande desilusão. 

Algumas pessoas vem te consolar, dizendo que Deus sabe o que faz, Deus tem a hora certa, melhor que tenha acontecido agora do que você alimentar por mais tempo aquele sonho. Tudo faz sentido mas nada faz sentido ao mesmo tempo. 

Nessas horas, busco pensar que ainda que a situação esteja fora do meu controle, está totalmente nas mãos de Deus. Está agendada para uma feliz coincidência no futuro, milimetricamente no tempo em que se cruzarão a resposta, as circunstâncias e a paz no meu coração, ao que poderei chamar de hora certa. 

O problema é que a hora certa só se torna a hora certa depois que acontece. Antes de acontecer, se chama fé. E como nunca temos o futuro, tudo o que temos é a fé. É nesta palavra tão forte, tão pequena e tão difícil de se viver que está contida toda a nossa esperança. 

Meu coração é tão humano, que todos os dias se esquece disso e se reveste de uma ansiedade que o sufoca. Todos os dias tenho que lembrá-lo que Deus é quem escreve o futuro, tenho que lutar para despi-lo dessa ansiedade. Às vezes consigo e sinto paz, às vezes não consigo e sofro inutilmente por um futuro que não posso controlar. 

No fim das contas, o que nos resta é confiar. Entender que Deus está na direção e que ele sabe o que é melhor para nós, mais do que pensamos que sabemos. Que a ele pertencem o poder e o domínio sobre todas as coisas. Que ele dá e tira. E que a sua graça nos basta. 

Ô palavra boa de falar

“Ô palavra boa de falar”, dizia minha mãe quando éramos crianças e vivíamos falando “mãe” pra cá, “mãe” pra lá. É verdade, mãe. Mesmo quando a gente cresce, essa continua sendo a palavra mais gostosa de falar. 

Hoje tenho a idade que minha mãe tinha quando nasci. Eu que sempre a achei tão adulta, forte, conhecedora de tudo. Eu que achava que ela não chorava, que nela não fazia dodói, que ela podia tudo. Hoje, do alto de minhas incertezas, penso na vida de minha mãe, jovem, mãe de primeira viagem, se sentindo provavelmente tão insegura ao me pegar em seus braços.

Fui eu que vim ao mundo e mudei completamente sua vida, transformei seu contexto, virei suas certezas de cabeça para baixo. Eu que desestabilizei tudo. E mais tarde veio meio irmão para me ajudar a bagunçar. E depois minha irmã para acabar com toda a ordem de vez. Sempre achei minha mãe corajosa de ter tido três filhos, ainda acho, mas às vezes a coragem é a única opção. 

Mãe é aquela palavra que desperta em nós o amor mais verdadeiro, mais instintivo, mais profundo. Quando queremos prestar alguma homenagem a nossa mãe, nos faltam palavras, parece que tudo que podemos dizer é tão clichê que não reflete este sentimento único que levamos em nosso peito.  

A palavra mãe também nos traz uma dose de culpa, nos sentimos sempre em dívida, talvez por nos dedicarmos a ela menos do que gostaríamos, pois sabemos que ela merece mais de nós do que conseguimos dar. 

A mãe está sempre no nosso pensamento. Acontece uma coisa boa, ou ruim, e dá logo vontade de contar para a mãe. A gente coloca uma blusa amassada e já mentaliza automaticamente o olhar reprovador da mãe. A gente viaja e pensa se a mãe gostaria ou não daquele lugar. A gente se mete em apuros e pensa na reação da mãe se ela visse a gente agora. 

A gente passa uma parte da vida tentando ser independente da mãe. Mas, que bobagem, é tão bom tê-la cuidando de nós. Passamos da medida um pouco pra lá, um pouco pra cá, até chegarmos no ponto certo de saber receber o cuidado após já termos sido criados. A gente vai crescendo e cada vez vai tendo mais certeza de que não tem nada melhor do que casa de mãe, colo de mãe, abraço de mãe e cheiro de mãe. 

É nela que encontramos o nosso abrigo mais primário, o nosso ninho, a acolhida certa. Sabemos que ela infelizmente não estará para sempre lá, mas em algum momento já ouvimos dela que ela será sempre nossa mãe. E nos consolamos nessa frase que é tão óbvia e ao mesmo tempo tão tranquilizadora de escutar. 

O Dia das Mães não é só pra elas, é também para nós. Ele vem para nos lembrar de falar tudo isso pra ela. Para nos forçar a colocar pra fora, em palavras e abraços, aquilo que sentimos por ela. Queremos estar pertinho neste dia, mas mesmo se não for possível, queremos que ela saiba que está aqui ocupando um lugar cheio de amor no nosso coração. Te amo, mãe. 

Costa Rica para esposas de surfistas

Este não é um blog de viagens, mas minha viagem para Costa Rica não poderia passar em branco sem gerar um post. Aqui encontrei várias esposas de surfistas que vieram acompanhar o marido na viagem com foco no surf, então decidi escrever pensando também nas mulheres que estão em dúvida se vale a pena ou não vir com o marido ou namorado para uma viagem como esta. 

Quem é esposa de surfista, como eu, sabe que o surf é algo que entrou profundamente na vida de nossos maridos e é mais do que um simples esporte. É um lifestyle, um nicho, uma paixão, uma terapia para o corpo e para a alma que cura os males de quem o pratica. 

O surf fez com meu marido coisas que eu jamais poderia imaginar, como tirá-lo da cama às 5 da manhã quase todos os finais de semana e encorajá-lo a enfrentar água gelada em dias frios e chuvosos. É a prova de amor que eu precisava para saber que não é uma paixão passageira, é algo mais profundo e talvez para a vida toda (ou enquanto houver força física para isso).

Uma das coisas mais legais que o surf traz é a comunidade do surf, algo em comum que os permite conversar com desconhecidos, criar empatia, formar grupos e combinar de surfar juntos. E nós, esposas, fazemos amizade com eles e com as esposas deles também, estendendo o círculo de amizades do surf sem surfar. 

Acabamos imergindo em um vocabulário totalmente novo e nos tornamos um pouco fotógrafas, um pouco sócias nos investimentos em pranchas, roupas de borracha e acessórios, até que chegamos aqui, parceiras de uma surf trip. 

Pura vida! Amei essa saudação costa-riquenha que tem tudo a ver com este país. Sim, aqui a vida é pura, simples e natural. Um belo lugar para ser a terra do surf. O estilo das pessoas não deixa enganar, e de uma forma ou de outra parece que todos os turistas aqui – e os locais – tem alguma ligação com a cultura do surf. 

Os ventiladores de teto quase parando, junto com o vento que sopra vez ou outra, tentam amenizar os 34 graus de sol. O mar é pra quem surfa, e mesmo assim pede alguns cuidados, devido à presença de pedras, crocodilos e até tubarões. Mas, para as esposas de surfistas, em alguns trechos é possível entrar e se deliciar com um banho de mar no Pacífico, que aqui tem águas mornas. 

O povo é educado e cortês, e sabe receber bem os turistas. Alguns arranham um português, e com boa vontade + português + portunhol + inglês, é possível se comunicar razoavelmente bem. Como em qualquer lugar, há muitos brasileiros ao redor. Brasileiro aqui tem fama de maconheiro, e vejam só, até nos ofereceram maconha para comprar quando dissemos que éramos brasileiros em uma lojinha de souvenir. 

Iguanas, lagartos, macacos, esquilos – em algum momento algum deles vai passar bem na sua frente. Cachorros em todas as praias, deitados preguiçosos na sombra ou corajosos tomando um banho de mar. Eles chegam se sentindo em casa, invadindo nossa canga na areia e se encostando na gente pedindo carinho. 

Se você também não é uma pessoa bicho-friendly, talvez se assuste com os diversos sons que a natureza faz, os ruídos que saem do meio do mato, o vento balançando os galhos, os pássaros que tentam roubar a sua comida e as várias coisas que se mexem no chão. 

Prepare-se também para alguns pequenos perrengues da vida roots somados aos perrengues normais de estar em um outro país. Se chover, vai acabar a luz. Se acabar a luz, vai acabar a água. Não espere ver acostamento, mesmo nas principais estradas. O mapa off-line do Google Maps vai funcionar em 90% dos casos, em outros ele vai te mandar para caminhos errados, propriedades privadas ou simplesmente para o meio do nada. 

As praias são distantes uma das outras, e é necessário alugar um carro, de preferência 4×4, para enfrentar algumas estradas esburacadas e de pedrinhas. Andar pelas estradas daqui é como estar na roça, em uma cidade do interior de anos atrás. Casinhas na beira da estrada com as roupas penduradas no varal, crianças com uniforme de saia de prega ou bermuda social azul marinho e camisa de tecido branca. É possível avistar várias criações de gados, se alimentando de um capim tão seco quanto toda a vegetação ao redor.

Roberto Carlos toca nas rádios locais, em suas versões em espanhol, junto a muitas outras musicas latinas que nós brasileiros desconhecemos devido às fronteiras culturais de nosso idioma. 

Come-se bem, com um tempero bem próximo ao brasileiro, mas com suas particularidades. No café da manhã é servido arroz e feijão, frango, carne, pepino, tomate, além das comidas “normais” de café. Enquanto penso o quanto acho isso estranho e um tanto indigesto, vejo meu marido sentar na minha frente com um belo prato de jantar às 7 horas da manhã. 

As praias são bonitas e bastante selvagens, com quase nada de infraestrutura, vegetação nativa e pouca sombra. É possível estender a canga na areia e tomar sol enquanto o marido surfa. Mas o ideal é parar próximo a algum restaurante (ou ao único restaurante existente), para poder tomar uma água e se abrigar em um pouco de sombra caso o mar esteja melhor que o previsto (para eles, claro). 

No fim, torcemos para que tenha onda e para que o marido aproveite, afinal, se estamos aqui por causa deles, então que valha a pena para eles. Se nós também aproveitamos? Para quem ama sol e praia, como eu, não tem como não aproveitar. A dica é pegar um hotel bacana para poder relaxar nos dias em que não vale a pena acompanhá-los para o surf. É um tempo para descansar, sem dúvida. Ler um livro, tomar um drink, se desconectar de toda a correria e falta de tempo que nos rodeia.

Ah sim, estou falando para as esposas que não surfam, mas se você também surfa, com certeza vai aproveitar muito mais. Aqui tem várias mulheres surfistas e sempre me impressiono como algumas conseguem surfar de biquíni – será que é só em mim que o biquíni fica saindo do lugar quando bate onda? Se você surfa, me tira essa dúvida por favor. 

Enfim, se seu marido está doido para fazer uma surf trip e quer que você vá, vá com ele. Leve protetor solar, repelente, um livro, venha numa vibe relax e aproveite. Pelo menos aqui estamos livres dos top less. E como o surf exige certo preparo físico dos surfistas, digamos que o visual ajuda. 

A viagem nem acabou ainda e lá estão eles pensando na próxima surf trip, enquanto tentamos trazê-los de volta para a realidade de que existe vida além do surf. Mas quando a gente chega ao final da viagem e vê que nosso marido “fez a cabeça”, mal consegue levantar os braços e fica revendo sem parar as fotos e vídeos dele surfando, a gente sente que a felicidade também consiste em ver quem a gente ama feliz. 

Algumas fotos da viagem:

Iguana da linhagem dos dinossauros passando bem pertinho de mim. 

Cachorro remelento invasor de cangas que me escravizou uma manhã inteira. Se eu parasse se fazer carinho ele começava a rosnar. 

Prato de café da manhã do marido. 

Sol se pondo em Tamarindo, na região de Guanacaste, que foi onde nos hospedamos. 

Roca Bruja, pico mais famoso do surf que tem um lindo visual mas é só pra quem surfa, pois é puro perrengue. 

Quando a lógica não dá conta

Jesus não fazia a menor diferença ali. O vento forte, a escuridão total, as ondas que iam enchendo o barco de água. Desespero. E Jesus dormia, sem parecer se importar com nada. Eles faziam todo o trabalho duro para controlar o barco, sozinhos. E daí que Jesus tinha feito cegos enxergarem, paralíticos andarem? De que adiantou ver tantos milagres se agora que eles mais precisavam, Jesus dormia? – Mestre, você não se importa que a gente morra?

Jesus acordou… e como quem consola uma criança, disse ao mar: Aquiete-se. Acalme-se. Imediatamente o vento parou e o mar ficou calmo. A natureza reconheceu a voz do criador do universo, e obedeceu. Jesus falou aos discipulos: por que vocês estão com tanto medo? Ainda nao tem fé? E eles, apavorados, viram que tudo o que conheciam de Jesus ainda era muito pouco… E perguntavam: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

Acredito que os discípulos de Jesus eram as pessoas mais próximas a ele, que mais o conheciam. Eles caminhavam lado a lado e compartilhavam os assuntos do dia a dia com Jesus, mas mesmo assim tinham dificuldade para ter fé, para conhecê-lo o suficiente a ponto de confiar totalmente nele. Às vezes fico imaginando como seria se eu tivesse vivido no tempo de Jesus. Será que eu acreditaria nele? Será que eu o seguiria junto com a multidão, impressionada e atraída por seus milagres, mas sem considerá-los suficientes?

Confesso que, se eu estivesse lá naquela época, provavelmente acharia um pouco engraçado, em outra ocasião, ver aquele menino levando seus 5 pães e 2 peixes para Jesus. Imagino meu coraçãozinho incrédulo vendo mais de 5000 pessoas esperando para serem alimentadas por aquele simples precursor do McFish. 

Multiplicar a matéria praticamente do nada me soa totalmente anti-matemático, anti-físico e anti-natural. Ou melhor dizendo, sobrenatural. Quando estava na universidade, muito me intrigava esse assunto sobre o conflito entre razão e fé. Na universidade me deparei com a Palavra de Deus sendo mencionada como “lenda” e os personagens bíblicos tratados como habitantes da Terra do Nunca ao lado de Peter Pan e sua turma.

Participava de um grupo de estudos bíblicos e sentíamos uma retaliação de certo modo sutil, pessoas que arrancavam dos murais nossos cartazes de divulgação, a proibição que tivemos de usar as salas de aula vazias na hora do almoço para estudar a Bíblia. Passamos então a nos reunir sentados nas áreas comuns, o que, para a frustração de alguns, trouxe mais visibilidade e mais pessoas aos nossos estudos, que iam se aproximando e tomando seu lugar ao chão para aprender sobre Jesus. 

Mas foi quando divulgávamos uma palestra sobre Criacionismo, que seria realizada no instituto de física da USP, que encontramos a verdadeira resistência, e aí percebi o quanto o conflito realmente tinha lugar no ambiente universitário. Comentei o assunto com um professor mais próximo, que ao perceber que eu estava falando sério, me falou com sinceridade, e com um certo tom de decepção, que “a universidade não tem espaço para a religião, apenas para conhecimentos cientificos”, endossando aquele conflito tão disseminado quanto irreal. 

Me pergunto quando foi que nos apropriamos da ciência como uma coisa “nossa”, que não tem nada a ver com Deus, sendo que nosso único papel neste meio é desvendar os mistérios que já existem e explorar o potencial daquilo que já estava aqui quando chegamos, usando para isso ferramentas que também não produzimos: nossas mãos e nossa inteligência. 

Quando foi que a natureza deixou de ser de autoria de Deus, deixou de ser sua criação, sua marca revelada a todos? Quando foi que a ciência deixou de obedecê-lo e passou a caminhar independente seguindo suas próprias leis? Quando foi que a física, ou a biologia, decidiram se voltar contra quem as desenhou com tanta perfeição, riqueza de detalhes e funcionamento milimetricamente coordenado? Quando foi que a matemática se achou maior do que Deus, sendo ela mesma incapaz de contar todos os seus números, sabendo melhor do que ninguém a grandeza do infinito do poder de Deus?

Acho que foi coisa do homem isso, de instituir um conflito ilusório, talvez por sua dificuldade natural de enxergar além do que os olhos podem ver. A relação entre ciência e fé é personificada através do próprio ser humano, que é composto por nada menos do que corpo e espírito. Precisamos tanto de um quanto do outro para estarmos vivos. Não é a ciência e nem a lógica que se opõe à fé, e sim o pecado, que amarra o coração do homem e o arrasta para longe de Deus.

Não acredito que estes milagres tenham sido difíceis para Jesus. Ele dormia tranquilamente em meio à tempestade sabendo que a qualquer instante poderia acalmá-la. Não acredito que o mar pudesse ter optado por não se acalmar, ou que o alimento pudesse ter oferecido qualquer resistência à sua multiplicação. Não acredito que a ciência pudesse ter se levantado em protesto, questionando “quem ele pensa que é para colocar sua vontade acima das minhas regras”. 

Mas acredito que houve um milagre que foi difícil sim, custoso, sofrido. Que tirou o sono de Jesus e o fez chorar. Que envolveu não só um terrível sofrimento do corpo, mas um indescritível sofrimento de espírito, ao sentir-se desamparado pelo Pai, experimentando a dor maior, que nós, homens, merecíamos experimentar.

Poderia haver algo mais difícil para um Deus todo poderoso do que se esvaziar de sua divindade para morrer em uma cruz em amor à sua criação? Ressuscitou a si próprio para nos provar que, mesmo se entregando completamente, permaneceu abastecido com seu poder sem fim. E para nos mostrar que aquilo que consideramos a nossa maior certeza no mundo – a morte – não é a palavra final. 

Tomando a pequena porção de pães e peixes, Jesus deu graças e fez a multidão se fartar. Assim como interrompeu a tempestade apenas com o som de sua voz. E eu continuei acreditando na química, na matemática e na física e me formei em Engenharia. E sei que, quando elas não dão conta, Jesus multiplica, divide e transforma.

Entre tantos milagres impressionantes, sei que o maior de todos foi cuidadosamente preparado e efetuado com amor. Foi purificar meu coração do pecado e abrir o caminho para a eternidade junto ao Pai, a partir do momento que Jesus se derramou na cruz. Foi a salvação do meu espírito, e do seu, e de todo aquele que nele crê, para vivermos para sempre na presença de Deus, quando toda a ciência for deixada para trás. 

Carta a uma noiva (atenção: contém spoiler) 

Fica tranquila, você não vai chorar, não vai borrar a maquiagem. E relaxa, ele não vai chegar atrasado, nem você. Também não se preocupe com a filmagem, pois você nunca chegará a recebê-la. Ah, sim, ele será gentil esta noite. Como eu sei disso? Eu sou você daqui a 7 anos. E o mais impressionante é que, mesmo que você não saiba nada do que vai acontecer daqui pra frente, a maior parte das coisas que tenho para te contar você já sabe. Sim, é ele. Ele é o grande amor da sua vida. Você já sabe disso. Você vai amá-lo como pensa que irá amá-lo, até mais. 

Ele será o seu melhor amigo, com quem você vai dividir tudo. Ele será a sua melhor companhia. Vocês vão se jogar à noite na cama e ficar papeando até tarde, vão rir juntos assistindo Porta dos Fundos, vão confidenciar sentimentos. Vão pegar muita estrada juntos, vão conversar sobre tudo, por horas e horas. Vocês vão levar a sério esse negócio de se tornar um só, a ponto de não se reconhecer mais sem o outro, pois ele já é parte de você. 

Às vezes vocês vão pensar igual, vão falar juntos a mesma coisa, vão se comunicar apenas pelo olhar. Ele vai te ler com os olhos de raios X que você vai até se assustar. Não tente fingir que não chorou, não tente fingir que não comeu chocolate, ele vai saber. Quando você quiser guardar seus pensamento só pra você, você vai se retirar para o quarto, vai fechar a porta, vai talvez escrever. Ele vai entender. 

Haverá dias em que você vai estar estressada, cansada, exercendo seu direito mensal à TPM, e vai querer achar um culpado, vai ser chata e não vai ter paciência com ele, afinal, quando se divide a vida com alguém não é possível disfarçar o que se é ou o que se sente. Ele também terá seus dias ruins, que às vezes coincidirão com os seus, e entre encontros e desencontros vocês vão aprendendo a dar o espaço, o silêncio e o perdão necessários para a caminhada. 

Às vezes você vai ter um ataque de ciúmes, uma preocupação se você deveria ser mais ciumenta, se deveria ser daquelas esposas que ficam checando o e-mail, facebook e WhatsApp do marido, porque nunca se sabe, né. Uma vez ou outra vai até dar uma espiadinha, mas você não tem paciência pra ler nem os seus, imagina os dele. Você vai querer dar um tapa na cara da moça do caixa da padaria que fica fazendo graça pra ele na sua frente, e ele fica se sentindo a última bolacha do pacote, mas o que você pode fazer? Além disso, ela tem bigode. 

Ele vai dar muita risada de você, mesmo aos 7 anos de casados. Vocês vão falar besteiras, vão ser bobos, vão fazer palhaçada. Vocês vão se divertir juntos, vão fazer várias viagens legais, vão curtir muito o tempo a sós que vocês tiverem. Você continuará fascinada pelo sorriso dele, pelo olhar dele, pela expressão carinhosa com que ele irá te olhar. 

Você irá passar por situações muito difíceis, coisas que você nunca pensou que aconteceriam com você, mas não quero te falar disso agora. Só quero que você saiba que, em todos estes momentos, ele estará ao seu lado. Ele vai segurar a sua mão e te abraçar. Ele vai ser o seu porto seguro quando a sua estrutura ruir. Vai te trazer de volta para a realidade quando tudo parecer maior do que é. 

Você se apaixonará e reapaixonará milhares de vezes por seus beijos, por seu toque, por sua pele. Você vai ficar secretamente olhando-o adormecer e pensando o quanto é bom tê-lo ao seu lado. Seu corpo vai ter uma conexão tão certa com o corpo dele que o jogo de texturas, gostos e ritmos vão se combinar em uma proximidade irresistível. 

Ele vai te apoiar em tudo, vai te incentivar, vai acreditar em você. Na verdade ele vai te estimar até demais, vai falar coisas tão legais sobre você que você vai se perguntar de onde foi que ele tirou tudo isso, como foi que ele teve aquela leitura de você. Ele vai se preocupar com que você esteja bem e feliz. E quando você não estiver bem, ele vai fazer de tudo para te ajudar a mudar a situação, para te mostrar um novo ângulo, para te mostrar que você pode fazer diferente, mesmo que você não acredite mais. 

Você continuará com a mesma insegurança sobre o amanhã, com medos que talvez nunca se concretizem, com a mais pura expectativa pela próxima página. Ele continuará vivendo linha por linha, parágrafo por parágrafo, deixando o amanhã para o dia seguinte, como deve ser. Vocês vão acabar se complementando, cruzando as narrativas e construindo juntos uma linda história. 

Por fim, queria agradecer a você, por ter tanta certeza, por estar tão determinada e disposta a fazer dar certo. Essa noite você vai dizer Sim. Você terá muitas decisões importantes para tomar pela frente, mas essa sem dúvida será a melhor de todas. 
Daqui a alguns anos, haverá momentos em que não vai restar mais nada, não vai haver ninguém e você vai se sentir esgotada e sem forças. Então, no escuro, baixinho, é ele quem você vai escutar dizendo “eu te amo”.