O universo inteiro

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Imagine que, de todos os alimentos e iguarias que existam no mundo, você tenha à disposição o que há de mais delicioso, fantástico e saboroso. Que esse alimento lhe seja servido a hora que você desejar, na medida certa, à temperatura ideal, e que só te faça bem. Assim é o seu leite para o seu bebê. 

Imagine que você possa estar no lugar mais lindo, aconchegante, que lhe envolva os sentidos, lhe encha os olhos e lhe aqueça o coração. Que você só deseje estar ali, e voltar sempre. Que esse lugar te faça esquecer de tudo, te faça relaxar e descansar. Um lugar seguro, onde você se sinta protegido e acolhido. Assim é o seu colo para o seu bebê. 

Você é o mundo dele. Você é tudo o que há de bom e do melhor. Você é a pessoa mais amada, mais desejada, tudo em você exala amor e cuidado. Você é o lar. Você é o abrigo. Você é simplesmente tudo e sem você ele não poderia ao menos sobreviver. Não poderia se alimentar, se desenvolver, aprender sobre o amor. Assim você é para o seu bebê. O suficiente, o bastante, o universo inteiro. 

Refletindo sobre isso pensei que assim Deus é para nós também. De todos os seus nomes, o que melhor expressa esse vínculo é o Pai. Sem ele não poderíamos nem respirar, nem existir, nem ser. É tudo por meio dele. Ele é o pão, a vida, o refúgio. Ele é o próprio amor. 

Deus é o colo sempre presente, o alimento que sacia. É a paz, é o lar, é o sustento. É quem provoca nosso riso e nos preenche de alegria. Que reconfortante poder dormir sabendo que temos um Pai a olhar sempre por nós. 

Uma das coisas mais lindas da maternidade e da paternidade é poder entender de um outro ângulo, mesmo que minimamente, o amor de Deus por nós. 

Irreversível

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Um dia você vai crescer. E esse dia não está longe, eu sei. Quero que você saiba que tantas vezes fiquei te olhando dormir. Decorando cada traço seu, cada pequena expressão.

Que amei te amamentar, te ninar, te encher de beijos. Que me diverti tanto brincando com você na sala. Que li para você. Que orei com você. Que te dei todo o meu colo, toda a minha atenção, todas as minhas forças.

Que brinquei com você a cada banho. Que beijei seus pezinhos nas trocas de fraldas, te apresentei todos os dias à sua própria imagem no espelho, te confortei quando você chorava.

Quero que você saiba que você me transformou por inteiro. Que você nasceu no meu coração, cresceu no meu ventre e trouxe à tona tanta coisa que havia nas profundezas de mim.

Que você me forçou a resgatar meus valores mais primários. Me trouxe de volta ao simples. Me arrancou com força dos trilhos profissionais que tanto me empenhei em trilhar.

Que você invadiu praticamente todos os meus assuntos, impregnou meus textos, apareceu em meus sonhos. Seu cheiro grudou em mim. Irreversível. Você me tornou mãe.

A primeira cicatriz

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Não desejava tê-la. Sabia que ela era uma possibilidade, sabia que ela poderia acontecer. Mas não era o que eu idealizava. Tentei me preparar para um parto normal. Estudei as vantagens, assisti a vídeos, li bastante a respeito, contratei uma Doula, fiz exercícios para o períneo, tive medo da dor, tive dúvidas, tive pessoas dizendo que eu não conseguiria, tive mágoas.

Visitei maternidades humanizadas, quis conhecer a sala de parto, quis conhecer os processos envolvidos. Dediquei consultas inteiras com profissionais para entender as etapas, o tempo, os riscos, o passo a passo de como seria. Li sobre posições, como aliviar a dor, idealizei, idealizei, idealizei. Mas sempre com pés no chão, sempre sabendo que poderia não ser assim, sempre adepta ao que fosse melhor e mais seguro para mim e pra o bebê na hora que acontecesse.

Nunca havia tido uma cicatriz antes. Dessas importantes, dessas que levam pontos, dessas bem visíveis e que tem uma história para contar. E então passei a ter uma que nunca me deixa esquecê-la, que olha para mim em formato de sorriso no espelho a um palmo abaixo do meu umbigo.

No início foi difícil encará-la. Quando a olhava eu tinha vontade de chorar. Porque não foi como planejei, como desejei. Porque ela doía, porque era grande, porque ficaria ali para sempre. Ela me fazia lembrar de tudo. Da espera dolorosa em cima da maca, me encolhendo com as contrações cada vez mais fortes. Dos fragmentos de cenas com as palavras urgência e emergência sendo faladas aqui e ali. Da preocupação, do medo. De fechar o olhos e clamar a Deus silenciosamente, imóvel e impotente a esperar.

Lembro do anestesista que entrou mudo e saiu calado, mas possibilitou que tudo acontecesse. Da contagem dos instrumentos, de comentários como “mas que sonda grossa!”, de conversas paralelas sobre outros assuntos. Para todos era casualmente mais uma cirurgia. Mais uma de centenas que aqueles profissionais fariam. E para mim era A CIRURGIA, o momento mais crítico, mais importante, mais esperado, que deixaria A CICATRIZ e que mudaria a minha vida para sempre.

Lembro da obstetra falando que iria cortar o útero, lembro do meu marido sentado ao meu lado. Lembro da minha posição deitada de braços abertos, da falta de ar. Lembro daquele choro agudinho, do meu suspiro de alívio e de gratidão. Lembro daquele corpinho ao meu lado, de não conseguir levantar minha cabeça direito pra olhar. Lembro da boquinha que logo começou a procurar o mamá, mesmo tendo se alimentado através do cordão umbilical por meses, lembro de ter pensado que coisa maravilhosa é a natureza, o instinto, a criação de Deus.

Eu não desejei aquela cicatriz, mas ela foi a melhor coisa que me aconteceu. Ela que trouxe minha bebê à luz. Ela permitiu que a vida acontecesse. Seis meses após o parto, precisei pedir o prontuário da maternidade e li na primeira página o diagnóstico da internação. Estava claro, sem eufemismos, sem meias palavras, sem ninguém tentando me tranquilizar, dizendo que não era bem assim, que estava tudo bem, que ia dar tudo certo. Estava escrito SOFRIMENTO FETAL. E aí pude entender finalmente, totalmente e definitivamente o valor daquela cicatriz. Ela salvou a vida da minha filha.

Ela continua a sorrir para mim no espelho a um palmo abaixo do meu umbigo. Aprendi a sorrir de volta.

Ah, o pai…

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Todo mundo fala sobre a mãe. Porque falar de mãe é maravilhoso. Porque mãe é amor, é a acolhida certa. Mãe são flores, gifs animados, abraços, beijos e homenagens sem fim.

Mas pouco se fala sobre o pai. Ah, o pai… Aquele sem o qual não se poderia ter gerado a vida. Aquele cujo nome o próprio Deus assumiu para expressar seu vínculo com seus filhos.

É difícil falar de pai. Porque pai pode ser tantas coisas, não é mesmo? Pode ser herói e pode ser vilão. Pode ser “pai pra toda obra” e pode ser cobranças sem fim. Pode ser amigão ou pode ser linhas curtas pelo WhatsApp. Pode ser um telefonema no dia do aniversário ou pode ser um companheiro que caminha lado a lado.

O pai geralmente quer ser pai. Se emociona com o resultado positivo do exame. Acompanha a gestação, participa da escolha do nome. Fica ansioso com o parto, está lá na hora H, pega o bebê no colo.

O pai faz bagunça, joga pro alto, brinca, passeia, não vê a hora de ver crescer. O pai se preocupa com o sustento, com a escola, o pai trabalha para dar o melhor.

E aí, não se sabe bem quando nem por quê, o pai se questiona. Questiona a vida, questiona o casamento, questiona tudo o que queria viver e não viveu.

Ou talvez ele nem se questione tanto assim, às vezes simplesmente não parou pra pensar, não lançou aquele olhar mais atento e foi deixando rolar.

E de alguma forma o filho foi crescendo e o pai não soube bem o que fazia ali, ou como fazia para estar ali. Algo foi se desconectando. Não, não adiantava mais ter feito bagunça, jogado pro alto, pegado no colo. Faltava algo mais.

Faltou talvez uma conversa sem julgamentos. Conselhos livres de expectativas. Faltou honestidade. Faltou um esforço real, além do monetário, de estar presente de corpo e também de alma.

Faltou uma conversa mais longa, faltou talvez assunto. Faltou imergir, entender, escutar. Faltou uma cerveja juntos, faltou abrir o coração, faltou demonstrar interesse. Faltou amor? Injusto dizer. Talvez tenha faltado demonstrá-lo. Talvez tenha faltado entender o amor que se recebeu.

O difícil não é ser pai. É continuar sendo pai. Porque o filho vai crescer, vai mudar, mas vai continuar precisando de um pai. O pai não pode pensar que mãe e filho se bastam, mesmo que pareça. Não pode pensar que já cumpriu o seu papel.

Ele continua sendo necessário. Porque a sua simples ausência fere. A sua aparente indiferença machuca. A lacuna do que poderia ter sido e não foi dói. E o tempo perdido não volta.

Licença-maternidade

Mulher segurando bebê no colo

São braços que empurram o carrinho pelo mundo afora. São tardes solitárias. São madrugadas que parecem não ter fim. É o eterno balançar para lá e para cá. É olhar para o teto, é olhar para as paredes, é pensar e pensar e pensar.

É segurar o bebê no colo. É ninar o bebê no colo, é comer com o bebê no colo, é andar pela casa com o bebê no colo. É segurar o bebê com um braço enquanto você tenta garantir a sua sobrevivência com o outro. É dor nas costas e dor nos braços.

É não dormir, é dormir pouco, é dormir picado, é querer mais do que tudo simplesmente conseguir deitar e dormir sem que nada nem ninguém te acorde. É deitar sem saber que horas vai acordar e acordar sem saber que horas vai conseguir dormir de novo.

É ficar de camisola de manhã. Às vezes até a tarde. Às vezes até a noite. É fazer pequenos planos para quando o bebê tirar a soneca do dia. É não conseguir fazer nada pois o bebê só quer tirar a soneca do dia se for no seu colo.

É um eterno intercalar de mamá, troca de fraldas e tentativa de fazer dormir. E no interlúdio de tudo isso tentar preparar a comida, comer, tomar banho, arrumar a casa, lavar roupinhas e esterilizar chupetas.

É esquecer que dia da semana é hoje, é esquecer a panela no fogo, é esquecer o restante da frase, é esquecer a blusa aberta na rua.

É chorar escondido no banho. É estar na melhor companhia do mundo e às vezes se sentir assustadoramente só.

É amamentar com o celular na mão, é fazer dele a janelinha por onde você espreita o mundo. E, pasme, ele ainda está lá. É participar de novos grupos de WhatsApp, é ver que muitas passam pelo mesmo que você.

É fazer caras e bocas para tentar arrancar um sorriso, é querer registrar para sempre na memória aquele lindo sorriso desdentado. É conhecer o melhor som do mundo: o som da risada do seu bebê.

É tirar milhares de fotos, encher o celular de vídeos, é ter a ânsia de registrar cada pequena expressão fofa, é não querer esquecer nada. É ver e rever e rever as fotos daquele serzinho.

É a constante contradição de desejar que o tempo passe logo nas fases difíceis e que o tempo passe mais devagar pois seu bebê está crescendo rápido demais.

É questionar valores, é questionar o futuro, é viver tanto em função dos quereres desse novo ser que você mesma já não sabe bem o que quer. É a negação de si mesmo em prol de outro alguém.

É um medo que às vezes bate à porta sem avisar. É a tristeza que não se explica. São as lágrimas fáceis que em um segundo aparecem, rolam e encharcam. É cansaço misturado com gratidão.

Assim como você

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Assim como você, quero sugar cada segundo desse momento. Eu não quero perder um só sorriso seu, mesmo aqueles de canto de boca depois de mamar. Quero sentir seu corpinho recostado no meu peito, entregue, reconhecendo seu ninho.

Quero retribuir seu olhar tão puro e tão atento. Quero ser o melhor lugar do mundo para você, e ver seus olhinhos revirando de satisfação quando encontram o seu alimento no meu peito.

Quero apreciar sua expressão tranquila, de olhinhos fechados, em um sono gostoso que deixa escapar uma risadinha hora ou outra, e me perguntar com o que você estaria sonhando.

Assim como você, às vezes tenho medo. Também choro quando estou cansada, ou quando preciso de colo, ou quando me sinto só, ou até mesmo sem motivo aparente.

Quero te dar a mão, e sentir você segurando meu dedinho com sua mãozinha apertada, recebendo meu apoio. Quero que você saiba que eu sempre estou aqui.

Assim como você, também estou aprendendo, descobrindo novas sensações a cada dia, entrando em sintonia com este novo mundo. É tão maravilhoso quanto assustador, eu sei. É a vida acontecendo. E será sempre assim.

Tudo vapor

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– “Abre um pouco mais a perna. Assim.”

Por que eu tinha que abrir mais a perna? Algo estava estranho. Esperei aquele som acelerado inundar a sala, mas não veio. Será que o som da máquina estava desligado?

Eu tentava decifrar a expressão da médica, que examinava com atenção a tela, certamente pensando em uma forma delicada e profissional de me dar a notícia que eu não esperava ouvir. Após intermináveis segundos, a verdade veio como um soco: “Não tem mais coraçãozinho batendo”. Não tem mais coraçãozinho batendo. Aquela frase me atingiu com força e imediatamente as lágrimas vieram aos meus olhos.

Não sei descrever o que senti. Foi como querer tocar uma nuvem e ao chegar perto ver que é tudo vapor. Como a criança que segurou em falso o balão e o viu subir até desaparecer no céu. Como um vento que passou e levou a carta para longe, antes que fosse lida. Como um sonho que escorreu por entre os dedos antes que pudesse se tornar realidade.

Meus olhos encontraram os dele e, como se fosse possível, tentaram se consolar mutuamente enquanto nossos sentimentos se esfolavam ladeira abaixo. Me abandonei naquele abraço desejando com todas as minhas forças acordar daquele cruel pesadelo, ofegante e aliviada na minha cama em uma madrugada qualquer. Ao invés disso, voltei para casa e chorei todas as lágrimas que pude produzir.

Sangue, sangue e mais sangue. Hospital, internação, comprimidos, medicamentos. Tento levantar, tudo preto, não consigo, volto pra cama. Minha mãe, meu pai, eu tô bem, vou ficar bem. Quis pedir desculpas mas não encontrei coragem nem motivos. Sala de cirurgia, sedação. Fim.

Três dias depois, volto ao trabalho como quem volta de uma virose. Direto para uma viagem devido a um evento importante do setor. Porque a Convenção não mudou de data só porque sofri uma perda. Assim como as pessoas não ficaram mais gentis só porque estou sofrendo. Na verdade, ninguém nem imagina que eu estou sofrendo. Ninguém nem olha direito para mim. O que, neste momento, é até bom.

O trabalho não deu uma trégua, pelo contrário, os e-mails se acumularam e tudo está atrasado. Eu quero chorar, quero deitar um pouco, quero contar para alguém. Mas não há tempo pra isso, nem alguém que se importe. E, na marra, eu sigo adiante. Porque o mundo não pára para contemplar a minha dor.

Àquela altura, já existia uma música. Uma música totalmente pronta e gravada. Eu nem imaginava. Meu marido a guardara em segredo para me presentear quando conseguíssemos escutar com clareza as batidas do coração daquele nosso bebê, o que jamais viria a acontecer.

Alguns dias depois de todo o ocorrido, ele comentou comigo que havia feito uma música para mim, mas que a guardaria para um momento futuro. Concordei. E desde então não tocamos mais no assunto. Eu guardei os poucos itens da minha curta gravidez em uma caixinha e a escondi debaixo da cama, para não olhar mais para ela. Eu achei que ele também tinha trancado a música, guardado para resgatar apenas quando toda aquela amarga lembrança tivesse passado por completo.

Mas não foi assim. Meses depois, ele me contaria que cantava e tocava com frequência a música que ele tinha feito, escondido de mim, quando eu não estava em casa, para não esquecer. E foi apenas dois anos depois, quando finalmente escutamos pela primeira vez os batimentos nítidos e acelerados do coração de nosso novo bebê, que ele me apresentou a música.

Até então, eu achava que a música tinha nascido lá atrás mas tinha mudado, passado por adaptações, e o que eu estava escutando pela primeira vez era uma versão nova, recente. E foi apenas quando ele me mostrou a gravação, que eu soube da existência de um arquivo original, datado de agosto de 2015 e salvo em suas pastas pessoais.

Foi só aí que caiu a ficha, que me dei conta de tudo. Que percebi que durante dois anos ele cultivou secretamente uma trilha sonora perdida no vazio, aguardando um enredo real que lhe servisse, a música da nossa gravidez. Que quando ele cantava que “a melhor notícia do mundo é que vou ser pai”, ele cultivava o sonho, a esperança e a certeza de que esse momento chegaria. Que a gestação dele durou dois anos, até que a minha chegasse.

A música, que já é suficientemente linda por si só, ganha um brilho ainda mais especial quando inserida em seu contexto. A você, Jader, meu amor, muito obrigada por transformar a história mais triste que já vivi em uma linda história de amor. Você tem o dom de trazer doçura mesmo às frases mais amargas da nossa vida. Eu também te amo mais.

Link da música:

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https://youtu.be/4S3B1eN-g9M