Balanço dos 30

30 anos_sala de sonhos

Eu achava que aos 30 já seria mãe. Que ocuparia talvez uma posição gerencial, teria um salário maior, teria uma babá pra ajudar a cuidar das crianças. Achava que continuaria morando em São Paulo, ou até Nova Iorque, quem sabe.

Sempre achei uma bobagem quem dizia que estava ficando velho quando chegava aos 30. Assim como sempre achei bobagem discutir como o ano passou rápido, ora, o tempo passa na mesma velocidade sempre, nem pra mais e nem pra menos. E quando menos esperava aqui estou eu, ficando velha e impressionada como o tempo passou rápido.

Aos 30 já não sou mais a mais nova da turma, nem da equipe. Não ocupo mais aquela posição confortável da falta de experiência que nos dá a desculpa para todos os nossos erros bobos. Não posso errar tanto, não posso mais dizer qualquer coisa, não posso mais usar qualquer roupa. Não posso simplesmente sorrir e acenar e achar que as pessoas vão dar um desconto por que sou novinha mesmo. Os 30 exigem um pouco mais, mais firmeza, mais postura, mais cara de conteúdo, mais ar de segurança.

Aos 30 já perdemos alguém querido, já tivemos que lidar com a morte, já tivemos que entrar e olhar o corpo e não ficar apenas do lado de fora achando que aquilo era para os mais velhos. Já enfrentamos alagamentos horríveis, já fomos roubados, já tivemos que procurar sozinhos algum lugar de noite, já nos perdermos por aí, já batemos o carro estupidamente, já perdemos um voo, já sentimos medo de verdade. Já tivemos medo de sermos demitidos, ou já pedimos demissão. Já tivemos que nos despedir de pessoas que amávamos e isso calejou um pouco nosso coração e nos fez sermos mais fechados do que já fomos.

Quando conversamos com aquelas pessoas mais novinhas e com “todo o futuro pela frente”, também é legal a sensação de nos sentirmos mais “vividos”. Sentimos que já vivemos um bocado de coisas, de experiências, de erros que vamos tentar não repetir, de coisas que poderíamos ter feito diferente. Já temos até nosso arsenal preparado de conselhos para dar a quem quiser ou não os ouvir.

Achava que com o tempo ficaria mais corajosa, e não menos. Achava que seria menos viciada em chocolate, que não gostaria mais de Sandy, que não choraria com tanta facilidade, e o erro mais brutal, que seria menos ansiosa. É verdade que a gente vai se conhecendo mais, mas também vai mudando mais e às vezes tem a nítida sensação de não ter a menor ideia do que está sentindo. A gente para e repensa a vida e se pergunta se era aqui mesmo que a gente queria ter chegado.

É inevitável fazermos uma retrospectiva mental para tentar listar os ganhos. Aos 30 conhecemos pessoas muito mais novas que nós que fizeram sucesso, estão na TV, tiveram uma sacada empreendedora, abriram uma franquia, se mudaram para o Canadá e tantas outras conquistas tão mais incríveis e emocionantes que as nossas. E a gente repassa na cabeça o currículo, as linhas de declaração do imposto de renda, as viagens que fizemos, as pessoas legais que conhecemos, os familiares que amamos e, bom, é isso aí, essa é a nossa vida. A grama do vizinho está lá verdinha e é impossível não fazer comparações.

Engraçado que a gente sempre tenta resgatar o que ficou faltando. Não aprendi a cozinhar feijão, não fiz um intercâmbio, não sou tão fluente em inglês quanto gostaria. Vasculho até nas coisas que nunca me interessaram para ver se não deixei pra trás algo relevante, talvez um piercing no nariz, uma fase baladeira, um pôster de uma boyband no armário.

A gente lista também o que falta fazer e dá uma sensação de que não há mais tempo, pois parece que muitas coisas cabem só na juventude. É possível ainda ir morar na Austrália? Fazer um MBA nos Estados Unidos? Abrir um negócio e trabalhar para si mesmo? Fazer uma tatuagem? Ser um youtuber? Fazer uma festa a fantasia?

Ao mesmo tempo, quando penso que um novo ser se desenvolve dentro de mim, sinto que apesar de tudo o que já vivi, a vida está apenas começando. Há tanto que ainda não sei, existe todo um amor que ainda não conheço e que vai inundar meu coração, existe toda uma vivência da qual nada soube nestes 30 anos e que está prestes a se tornar a maior parte da minha vida. Terei novos medos, novos prazeres, novas pequenas e grandes descobertas. Existe uma versão de mim que em breve me será apresentada, que começará do zero, será construída e então se tornará irreversível em mim.

Ao mesmo tempo que fecho um ciclo importante, começo outro, e que alegria e gratidão tenho em dar o primeiro passo para esta nova etapa! Mal posso esperar pelos próximos 30 anos!

Do lado de fora

Eu fico aqui, do lado de fora. Sem saber direito o que se passa aí dentro. Sem saber se está tudo bem, se você está crescendo, se seu coração está batendo como deveria. Eu fico aqui aguardando passivamente que tudo aconteça. Não posso fazer nada além de fazer nada.

Eu fico aqui, sentido as consequências. Atenta aos sintomas. Com explosões de tons de rosa e azul passando pela minha cabeça. Com tantas coisas para pensar que não sei nem no que penso primeiro. O enjoo é tanto que atrapalha meus pensamentos, só quero que essa fase inicial passe logo e leve consigo o enjoo, o risco e o medo.

Eu fico aqui, pedindo a Deus. Por você. Que você viva. Tudo o que mais desejo, com todas as minhas forças e do mais profundo de mim, é a vida. Esse milagre que é a vida, esse presente imerecido e incontrolável. O que mais quero é vê-lo viver. É sentir o seu corpinho quente nos meus braços. É ver seus olhinhos se abrirem para o mundo aqui de fora.

Eu já tenho tanto amor para te dar. Desde quando soube de você. Desde antes de saber de você. Desde quando comecei a te desejar, a pedir a Deus que me desse você. Eu já te amo com uma força incrível, mesmo você sendo tão pequenininho. Será que você já consegue sentir esse amor?

Eu fico aqui, olhando pela janela. Vendo as pessoas andando de um lado para o outro com tanta liberdade. Vendo o dia que passa até chegar a noite. Olhando para fora e para dentro. Esperando que meu corpo resolva por si só. Esperando que tudo fique bem. Esperando poder voltar a trabalhar, esperando poder voltar a sair, a caminhar, a andar despreocupadamente. Dias em que tudo o que posso fazer é esperar.

 

Um quentinho para o coração 


Namore alguém de que você não goste de se despedir. Alguém que traga uma sensação boa quando você pensa nele em algum horário do dia. Namore alguém que te faça sentir mais feliz, mais disposto, mais vivo. Que traga um quentinho ao seu coração.

Namore alguém que goste de conversar, que diga mais sim do que não, que vá com você e ache a sua companhia mais relevante do que o programa em si. Namore alguém que não economize sorrisos, que goste de andar de mãos dadas, alguém que você goste da pele, do toque, do tato. Alguém em que você se encaixe direitinho em um abraço.

Namore alguém que te ame, mas não espere que outra pessoa possa preencher o amor próprio que lhe falta. Ame-se o suficiente e o necessário para não ser carente demais, nem ciumento demais, nem arrogante demais. Se você já se sente muito completo sozinho, talvez tenha que tirar um pouquinho de si para abrir espaço para seu par se deixar um pouco em você.

Talvez você tenha que ter uma elasticidade em seus projetos e sonhos para comportar os projetos e sonhos de um outro alguém. Recalcular a rota quantas vezes for preciso até que os dois caminhem na mesma direção.

Lembre-se de que você é uma parte boa da vida do seu namorado ou namorada. Ajude-o a ser melhor. Incentive seu par a cultivar suas amizades, pois você não as substituirá. Agregue-as como seus novos amigos. Incentive-o a cultivar seus hobbies, pois você também não os substituirá.

Se você já encontrou este alguém, namore para casar. Não caia naquele papo de que o bom mesmo é ter vários relacionamentos, experiências diferentes, não se prender a ninguém. Bobagem. Se você já encontrou a pessoa que você quer ter sempre ao seu lado, não a perca. Mesmo que você seja muito jovem. Mesmo que seja seu primeiro namorado ou namorada. Quando você for mais velho, vai perceber como é valioso dividir a vida por tantos anos com a pessoa que se ama.

Se você é casado, continue namorando. Nunca deixe seu namoro deixar de ser namoro. Não venha com essa conversa de que essa data é puramente comercial, não pense que é só para casais jovenzinhos, não deixe o romantismo morrer. Lembra daquela sensaçãozinha que você já teve no passado de querer tanto ter alguém para passar o Dia dos Namorados? Se hoje você tem, aproveite.

Quando as últimas velas se apagam



Algumas semanas antes

Minha vovozinha que tem 100 anos foi internada semana passada. Seu organismo não está mais conseguindo engolir, fazendo com que ela tenha que se alimentar por uma sonda. Escrevendo isso aos meus familiares, li o que havia escrito e me dei conta do quanto é triste. E chorei.

Chorei porque por mais saúde que a gente tenha, o corpo tem uma data de validade, e mesmo que não haja nenhum problema, uma hora ele para de funcionar.

Chorei porque ela vai morrer, porque meus outros familiares vão morrer também um dia e porque a perspectiva da morte dói quase tanto quanto a própria morte.

Chorei porque a vida consegue ser tão ingrata, que lutamos tanto para emagrecer, até que vem um câncer e nos rouba dez quilos em um mês, ou vem a idade e nos leva a capacidade de engolir.

Chorei porque a mortalidade não nos cabe, é uma roupa apertada diante do nosso anseio pela eternidade. Porque nenhuma hora parece ser a certa para a despedida.

Porque tentamos ser tanta coisa a vida toda, queremos tanto, corremos tanto, até que chega a hora que não conseguimos mais andar, nem lembrar, nem conversar, nem ser mais nada daquilo que nos caracterizava como nós mesmos. Tudo é vaidade.

Como no Curioso Caso de Benjamin Button, a idade avançada nos faz ser como bebês recém-nascidos, totalmente dependentes, gastando a maior parte da nossa vida de olhos fechados, dormindo, perdidos em sonhos que ofuscam a nitidez do nosso curto espaço de realidade. E então vamos encolhendo, diminuindo, regredindo e perdendo a forma, até desaparecer.

O que me consola é saber que logo do outro lado está o Pai, de braços estendidos a nos receber, alegre por termos enfim chegado. E que minha avó vai poder sorrir novamente aquele sorriso alegre e cheio de vida, e vai estar repleta de força e energia para adorar ao Jesus que ela tanto anseia encontrar.

28 de abril de 2017

Chorei, porque é impossível não chorar diante da morte de quem se ama.

É triste, mas ao mesmo tempo feliz, pensar no encontro de uma pessoa com Deus. Lembro-me de tantas e tantas vezes que, sozinha com a vovó, conversávamos sobre como seria o céu. Como deve ser conseguir andar, e falar, e sorrir, e se maravilhar no paraíso, após anos de locomoção limitada e vida social restrita?

Os meses e anos se passavam e Deus prolongava a estadia dela aqui na Terra, e era tão bom poder visitá-la e sentir o calor da sua pele, passar os dedos em seus cabelos brancos, penteá-los, apoiar minha cabeça sobre seu colo e receber seu carinho.

Vovó me perguntava se eu me nunca esqueceria dela. Claro que nunca vou te esquecer, vovó. Carregarei para sempre seu nome em meu nome e sua lembrança em minhas memórias e em meu coração.

Sua história se encerra de uma forma bonita e serena. É feliz pensar em tudo o que vivemos juntas, todos os momentos que pude aproveitar ao seu lado. Descanse em paz, vovó. Nos encontraremos no céu um dia.

Quando não é a hora

Às vezes a gente acha que é a hora que Deus quer. Tudo parece se encaixar tão perfeitamente, tudo dá tão certo em nossos planos, que só pode ser Deus dizendo que sim. Então a gente se ilude, faz planos, se joga de cabeça no que achávamos que seria um sim. Perfeito demais para ser verdade…

E então ficamos cegos. Cegos a alguns detalhes que não enxergamos, mas que estavam ali, bastava termos um pouco mais de atenção. Coisas que no fundinho até sentíamos que poderia ter algo de errado. E então vem a notícia. Não foi dessa vez. Não vai dar certo. Esquece tudo o que você achou que seria. Esqueça os planos que você fez. Esqueça as ilusões que você construiu.

A alegria enorme que há poucas semanas você sentiu, agora vem no dobro de tamanho em formato de tristeza. Não era para ser. Não era a hora. Você repete essas palavras para si, como quem tenta acreditar. Mas é difícil acreditar. Tão difícil quanto passar por uma grande perda, uma grande dor, uma grande desilusão.

Algumas pessoas vem te consolar, dizendo que Deus sabe o que faz, Deus tem a hora certa, melhor que tenha acontecido agora do que você alimentar por mais tempo aquele sonho. Tudo faz sentido mas nada faz sentido ao mesmo tempo.

Nessas horas, busco pensar que ainda que a situação esteja fora do meu controle, está totalmente nas mãos de Deus. Está agendada para uma feliz coincidência no futuro, milimetricamente no tempo em que se cruzarão a resposta, as circunstâncias e a paz no meu coração, ao que poderei chamar de hora certa.

O problema é que a hora certa só se torna a hora certa depois que acontece. Antes de acontecer, se chama fé. E como nunca temos o futuro, tudo o que temos é a fé. É nesta palavra tão forte, tão pequena e tão difícil de se viver que está contida toda a nossa esperança.

Meu coração é tão humano, que todos os dias se esquece disso e se reveste de uma ansiedade que o sufoca. Todos os dias tenho que lembrá-lo que Deus é quem escreve o futuro, tenho que lutar para despi-lo dessa ansiedade. Às vezes consigo e sinto paz, às vezes não consigo e sofro inutilmente por um futuro que não posso controlar.

No fim das contas, o que nos resta é confiar. Entender que Deus está na direção e que ele sabe o que é melhor para nós, mais do que pensamos que sabemos. Que a ele pertencem o poder e o domínio sobre todas as coisas. Que ele dá e tira. E que a sua graça nos basta.

Ô palavra boa de falar

“Ô palavra boa de falar”, dizia minha mãe quando éramos crianças e vivíamos falando “mãe” pra cá, “mãe” pra lá. É verdade, mãe. Mesmo quando a gente cresce, essa continua sendo a palavra mais gostosa de falar.

Hoje tenho a idade que minha mãe tinha quando nasci. Eu que sempre a achei tão adulta, forte, conhecedora de tudo. Eu que achava que ela não chorava, que nela não fazia dodói, que ela podia tudo. Hoje, do alto de minhas incertezas, penso na vida de minha mãe, jovem, mãe de primeira viagem, se sentindo provavelmente tão insegura ao me pegar em seus braços.

Fui eu que vim ao mundo e mudei completamente sua vida, transformei seu contexto, virei suas certezas de cabeça para baixo. Eu que desestabilizei tudo. E mais tarde veio meio irmão para me ajudar a bagunçar. E depois minha irmã para acabar com toda a ordem de vez. Sempre achei minha mãe corajosa de ter tido três filhos, ainda acho, mas às vezes a coragem é a única opção.

Mãe é aquela palavra que desperta em nós o amor mais verdadeiro, mais instintivo, mais profundo. Quando queremos prestar alguma homenagem a nossa mãe, nos faltam palavras, parece que tudo que podemos dizer é tão clichê que não reflete este sentimento único que levamos em nosso peito.

A palavra mãe também nos traz uma dose de culpa, nos sentimos sempre em dívida, talvez por nos dedicarmos a ela menos do que gostaríamos, pois sabemos que ela merece mais de nós do que conseguimos dar.

A mãe está sempre no nosso pensamento. Acontece uma coisa boa, ou ruim, e dá logo vontade de contar para a mãe. A gente coloca uma blusa amassada e já mentaliza automaticamente o olhar reprovador da mãe. A gente viaja e pensa se a mãe gostaria ou não daquele lugar. A gente se mete em apuros e pensa na reação da mãe se ela visse a gente agora.

A gente passa uma parte da vida tentando ser independente da mãe. Mas, que bobagem, é tão bom tê-la cuidando de nós. Passamos da medida um pouco pra lá, um pouco pra cá, até chegarmos no ponto certo de saber receber o cuidado após já termos sido criados. A gente vai crescendo e cada vez vai tendo mais certeza de que não tem nada melhor do que casa de mãe, colo de mãe, abraço de mãe e cheiro de mãe.

É nela que encontramos o nosso abrigo mais primário, o nosso ninho, a acolhida certa. Sabemos que ela infelizmente não estará para sempre lá, mas em algum momento já ouvimos dela que ela será sempre nossa mãe. E nos consolamos nessa frase que é tão óbvia e ao mesmo tempo tão tranquilizadora de escutar.

O Dia das Mães não é só pra elas, é também para nós. Ele vem para nos lembrar de falar tudo isso pra ela. Para nos forçar a colocar pra fora, em palavras e abraços, aquilo que sentimos por ela. Queremos estar pertinho neste dia, mas mesmo se não for possível, queremos que ela saiba que está aqui ocupando um lugar cheio de amor no nosso coração. Te amo, mãe.

Costa Rica para esposas de surfistas

Este não é um blog de viagens, mas minha viagem para Costa Rica não poderia passar em branco sem gerar um post. Aqui encontrei várias esposas de surfistas que vieram acompanhar o marido na viagem com foco no surf, então decidi escrever pensando também nas mulheres que estão em dúvida se vale a pena ou não vir com o marido ou namorado para uma viagem como esta.

Quem é esposa de surfista, como eu, sabe que o surf é algo que entrou profundamente na vida de nossos maridos e é mais do que um simples esporte. É um lifestyle, um nicho, uma paixão, uma terapia para o corpo e para a alma que cura os males de quem o pratica.

O surf fez com meu marido coisas que eu jamais poderia imaginar, como tirá-lo da cama às 5 da manhã quase todos os finais de semana e encorajá-lo a enfrentar água gelada em dias frios e chuvosos. É a prova de amor que eu precisava para saber que não é uma paixão passageira, é algo mais profundo e talvez para a vida toda (ou enquanto houver força física para isso).

Uma das coisas mais legais que o surf traz é a comunidade do surf, algo em comum que os permite conversar com desconhecidos, criar empatia, formar grupos e combinar de surfar juntos. E nós, esposas, fazemos amizade com eles e com as esposas deles também, estendendo o círculo de amizades do surf sem surfar.

Acabamos imergindo em um vocabulário totalmente novo e nos tornamos um pouco fotógrafas, um pouco sócias nos investimentos em pranchas, roupas de borracha e acessórios, até que chegamos aqui, parceiras de uma surf trip.

Pura vida! Amei essa saudação costa-riquenha que tem tudo a ver com este país. Sim, aqui a vida é pura, simples e natural. Um belo lugar para ser a terra do surf. O estilo das pessoas não deixa enganar, e de uma forma ou de outra parece que todos os turistas aqui – e os locais – tem alguma ligação com a cultura do surf.

Os ventiladores de teto quase parando, junto com o vento que sopra vez ou outra, tentam amenizar os 34 graus de sol. O mar é pra quem surfa, e mesmo assim pede alguns cuidados, devido à presença de pedras, crocodilos e até tubarões. Mas, para as esposas de surfistas, em alguns trechos é possível entrar e se deliciar com um banho de mar no Pacífico, que aqui tem águas mornas.

O povo é educado e cortês, e sabe receber bem os turistas. Alguns arranham um português, e com boa vontade + português + portunhol + inglês, é possível se comunicar razoavelmente bem. Como em qualquer lugar, há muitos brasileiros ao redor. Brasileiro aqui tem fama de maconheiro, e vejam só, até nos ofereceram maconha para comprar quando dissemos que éramos brasileiros em uma lojinha de souvenir.

Iguanas, lagartos, macacos, esquilos – em algum momento algum deles vai passar bem na sua frente. Cachorros em todas as praias, deitados preguiçosos na sombra ou corajosos tomando um banho de mar. Eles chegam se sentindo em casa, invadindo nossa canga na areia e se encostando na gente pedindo carinho.

Se você também não é uma pessoa bicho-friendly, talvez se assuste com os diversos sons que a natureza faz, os ruídos que saem do meio do mato, o vento balançando os galhos, os pássaros que tentam roubar a sua comida e as várias coisas que se mexem no chão.

Prepare-se também para alguns pequenos perrengues da vida roots somados aos perrengues normais de estar em um outro país. Se chover, vai acabar a luz. Se acabar a luz, vai acabar a água. Não espere ver acostamento, mesmo nas principais estradas. O mapa off-line do Google Maps vai funcionar em 90% dos casos, em outros ele vai te mandar para caminhos errados, propriedades privadas ou simplesmente para o meio do nada.

As praias são distantes uma das outras, e é necessário alugar um carro, de preferência 4×4, para enfrentar algumas estradas esburacadas e de pedrinhas. Andar pelas estradas daqui é como estar na roça, em uma cidade do interior de anos atrás. Casinhas na beira da estrada com as roupas penduradas no varal, crianças com uniforme de saia de prega ou bermuda social azul marinho e camisa de tecido branca. É possível avistar várias criações de gados, se alimentando de um capim tão seco quanto toda a vegetação ao redor.

Roberto Carlos toca nas rádios locais, em suas versões em espanhol, junto a muitas outras musicas latinas que nós brasileiros desconhecemos devido às fronteiras culturais de nosso idioma.

Come-se bem, com um tempero bem próximo ao brasileiro, mas com suas particularidades. No café da manhã é servido arroz e feijão, frango, carne, pepino, tomate, além das comidas “normais” de café. Enquanto penso o quanto acho isso estranho e um tanto indigesto, vejo meu marido sentar na minha frente com um belo prato de jantar às 7 horas da manhã.

As praias são bonitas e bastante selvagens, com quase nada de infraestrutura, vegetação nativa e pouca sombra. É possível estender a canga na areia e tomar sol enquanto o marido surfa. Mas o ideal é parar próximo a algum restaurante (ou ao único restaurante existente), para poder tomar uma água e se abrigar em um pouco de sombra caso o mar esteja melhor que o previsto (para eles, claro).

No fim, torcemos para que tenha onda e para que o marido aproveite, afinal, se estamos aqui por causa deles, então que valha a pena para eles. Se nós também aproveitamos? Para quem ama sol e praia, como eu, não tem como não aproveitar. A dica é pegar um hotel bacana para poder relaxar nos dias em que não vale a pena acompanhá-los para o surf. É um tempo para descansar, sem dúvida. Ler um livro, tomar um drink, se desconectar de toda a correria e falta de tempo que nos rodeia.

Ah sim, estou falando para as esposas que não surfam, mas se você também surfa, com certeza vai aproveitar muito mais. Aqui tem várias mulheres surfistas e sempre me impressiono como algumas conseguem surfar de biquíni – será que é só em mim que o biquíni fica saindo do lugar quando bate onda? Se você surfa, me tira essa dúvida por favor.

Enfim, se seu marido está doido para fazer uma surf trip e quer que você vá, vá com ele. Leve protetor solar, repelente, um livro, venha numa vibe relax e aproveite. Pelo menos aqui estamos livres dos top less. E como o surf exige certo preparo físico dos surfistas, digamos que o visual ajuda.

A viagem nem acabou ainda e lá estão eles pensando na próxima surf trip, enquanto tentamos trazê-los de volta para a realidade de que existe vida além do surf. Mas quando a gente chega ao final da viagem e vê que nosso marido “fez a cabeça”, mal consegue levantar os braços e fica revendo sem parar as fotos e vídeos dele surfando, a gente sente que a felicidade também consiste em ver quem a gente ama feliz.

Algumas fotos da viagem:

Iguana da linhagem dos dinossauros passando bem pertinho de mim. 

Cachorro remelento invasor de cangas que me escravizou uma manhã inteira. Se eu parasse se fazer carinho ele começava a rosnar. 

Prato de café da manhã do marido. 

Sol se pondo em Tamarindo, na região de Guanacaste, que foi onde nos hospedamos. 

Roca Bruja, pico mais famoso do surf que tem um lindo visual mas é só pra quem surfa, pois é puro perrengue.